Cristina, 24 anos, Belo Horizonte, jornalista e não mais estagiária!!! Fala, lê, escreve e xinga em italiano, disfarça no francês e sabe pouco de inglês. Ama o jornalismo, mesmo que esse amor tenha como consequência a pobreza permanente. Adora internet, música, fotografia, cinema e literatura. Preguiçosa. Tem medo de aves como galinha, ganso e pavão. Ama a natureza, não joga papel no chão, vive sorrindo, se derrete à toa. Não se recusa a dançar um bom forrozinho.




Sexta-feira, Janeiro 25, 2008


O trago embolado

Na garganta, o trago embolado, a fumaça engasgada, a passagem impedida. No pulmão, toda a poluição, todas as dores concentradas em um único órgão, toda essa sujeira que permanece no corpo cansado. A punição latente como a única alternativa viável, a falta de fôlego para acender mais uma vez.

A imundice alheia me impregnou, me arrancou a vontade de estar entre eles, de ser um deles... Enoja-me saber a maneira como tudo se dá e recuso-me a vender-me por tão pouco. Despeço-me sem pesar em deixá-los, reconheço o que há de melhor para mim longe de todos e priorizo o meu bem-estar a longo prazo, ciente de que posso contar apenas com o meu próprio corpo. Cansado, mas ainda vivo.

A obsessão pela verdade prolonga o sufocamento. Nada desce pela garganta desde as últimas descobertas. As escolhas tomadas desde então contribuem com a asfixia. Podo-me para crescer, escondo-me para desenvolver e sufoco-me para sobreviver: me calo, me corto, me jogo e me isolo. Tudo para mover-me arrastando junto o universo. Busco a droga ideal para me devolver o ânimo, a força, o chão. O ácido que irá trazer a minha cura, devolver-me à verdade e empurrar-me à realidade. A substância perfeita para pôr fim à minha asfixia, fazer descer o meu alimento e estancar o meu sangramento.

Fuga ou enfrentamento, tanto faz. O caminho é sempre o mesmo até a luz que me cega para o fim. A curiosidade é o que me leva adiante como se arrastasse o meu corpo que ainda necessita de vida. O ar me é devolvido sem saber ainda por qual razão não me foi tirado.


postado por: CRISTINA MEREU às 21:33
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Terça-feira, Janeiro 15, 2008


Eu também cansei



Eu poderia passar horas lhe contando histórias sobre a vida daquelas pessoas. Escutei muito do que tinham a dizer e presenciei o suficiente para tirar minhas próprias conclusões a respeito do trabalho que realizam e do que almejam em cada lugar por onde passam. Mas você acredita realmente que não há interesse por trás do que fazem? Você acha mesmo que aquela mulher faz tanto por aqueles homens por acreditar na salvação de suas pobres almas e não por vaidade ou necessidade de demonstrar a superioridade em dominar o gênero que, por gerações, foi o dominante?

Ali nada é tão puro quanto parece. Você acha que não há necessidade de ser admirada, respeitada e, principalmente, reconhecida? E para os que não reconhecem é dedicado todo o calor da fúria de um mesmo coração que produz discursos de paz, solidariedade e igualdade.

Chega de clamar por igualdade! Não vê que não somos iguais? Não me impressiono mais com mobilizações que mascaram os mais repugnantes interesses. Estou farta de atitudes a que todos dizem acreditar na pureza da intenção. Sei que a culpa exarcebada por ter metido a mão no que é dos outros e ter pisado na cabeça de pessoas corretas faz com que se criem trabalhos aparentemente dignos dos mais respeitosos prêmios e menções honrosas, mas a mim não enganam mais! Sei bem onde querem chegar desde que começaram e o meu corpo fica gelado só de pensar até onde são capazes de ir para se construir boa reputação em um mundo onde a imagem vale mais do que a dignidade.


postado por: CRISTINA MEREU às 16:04
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Terça-feira, Janeiro 08, 2008


Já vai tarde



Eu tenho evitado falar com as pessoas que gosto pois, ultimamente, tenho acreditado em um certo poder de contaminá-las com meu dedo podre. Aquele capaz de petrificar tudo o que toca. Eu não tenho podido manifestar minhas vontades, pois tudo que almejo trata logo de fugir de mim. E me impressiona a quantidade de seres mal intencionados que me rodeiam.

Eu tenho evitado falar com as pessoas porque elas sempre acham que podem levar vantagem sobre mim e eu não sei se o mundo é cruel ou eu que sou uma completa idiota. Eu fiquei com preguiça de pessoas que discursam sobre honestidade, amizade e sinceridade e na hora de agir fazem exatamente o contrário do que dizem. Seus comportamentos variam de acordo com o que precisam que eu faça a elas. Coleciono então trabalhos não recebidos, falsas amizades, trapaças armadas pelas minhas costas e a solidão que amarga a boca quando o mundo é ácido demais. Mas essa solidão se torna extremamente bem-vinda quando representa a verdade de não manter próximo a mim relações baseadas em interesses e convenções.

2007 deixou um saldo que permanece entalado na garganta, difícil de absorver. No ano novo tentei me esvaziar de tudo, esquecer os acontecimentos, a minha raiva da vida e todas as pessoas que tentaram me passar a perna. Procurei não pensar em nada na hora da virada para não trazer o rancor de 2007 para o ano novo. Entrei o ano sem lista de desejos (mesmo porque os desejos do ano passado ainda nem se realizaram), sem grandes expectativas. As pessoas mais conformadas são as que menos sofrem, não é mesmo? E eu estou cansada do ciclo de sofrimento que se instalou em minha vida. Cansada das pessoas que agem como amigas apenas quando lhes convêm. Que sumam todas, foda-se! Eu não preciso delas.

Mas, esse pensamento rasteiro não tarda em me deixar, as idéias e vontades começam a surgir. Desejo de novas vivências, novos textos, novos trabalhos e novas viagens. Mesmo apesar do receio de que puxem novamente o meu tapete, não dá pra parar. Mas dessa vez, prometo apenas depositar menos expectativa em futuras empreitadas e em atitudes não retribuídas. Esperar menos gera menos frustração quando não se pode contar com ninguém.


postado por: CRISTINA MEREU às 15:56
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